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Retomar a conversa: a melhor plataforma para as eleições de 2018     Heloisa Pait* A cada dia temos lido notícias mais graves sobre o impacto das redes sociais em eleições e plebiscitos, mas o que nos impede de voltar à boa conversa para formarmos noss...

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Dialogo é o melhor embate nas eleições 2018

Publicado por: admin
25/09/2018 07:34:33
Courtesy Pixabay
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Retomar a conversa: a melhor plataforma para as eleições de 2018

 

 

Heloisa Pait*

A cada dia temos lido notícias mais graves sobre o impacto das redes sociais em eleições e plebiscitos, mas o que nos impede de voltar à boa conversa para formarmos nossas opiniões e escolhermos nossos representantes?

 

Ficamos primeiramente atordoados com as fake news, num momento de crise da imprensa tradicional, que tem maiores condições de verificar as informações que publicam. Mas não são só as fake news que ameaçam o debate político, com disseminação rápida e sem controles profissionais éticos. Segundo Gilad Lotan, mesmo uma notícia verdadeira pode ser interpretada de modos diversos e, circulando entre grupos separados, acabar ganhando uma dimensão radicalmente oposta para cada grupo. A notícia na internet, então, poderia se tornar um fator de desagregação e não de agregação como a notícia de jornal ou televisão: um assunto comum para conversar e debater.

 

E mais: descobrimos que tais notícias, fake ou sensacionalistas, eram potencializadas por internautas autônomos ou financiados por grupos organizados para obter cliques e influenciar decisões, tais como o governo russo ou mesmo militantes de direita no Brasil, mais preocupados, na verdade, em criar dissenso que em influenciar em uma ou outra direção. E essa ainda: o mero fato de comunidades participarem ativamente do Facebook, uma pesquisa recente mostrou, pode exacerbar o sentimento anti-imigrante a ponte de levar a agressões físicas.

 

Às vezes isso tudo parece tão terrível que não sabemos muito como agir diante dos apelos e perigos das redes sociais. Será que estamos embrutecendo? Será que escolheremos o próximo presidente da república, que terá tantas responsabilidades diante da intensa crise nacional, nesse clima de dissenso e intolerância? O pior é que nossas universidades bateram tanto na tecla (errônea) da manipulação da mídia que agora, diante de uma ameaça real em escala global, não temos instrumentos de reflexão adequados para pensar a comunicação política e ética contemporânea. A direita brasileira se preocupa muito com os valores que os educadores impõem ao jovens. Já eu me preocupo com os instrumentos de reflexão que os educadores têm negado aos jovens.

 

Mas há sim o que fazer. As próprias redes sociais estão percebendo o buraco onde se enfiaram e buscando formas de reduzir a propagação de ódio na internet e o uso de perfis falsos, que minam a confiança que temos no diálogo. Alguns governos estão passando leis que protegem a privacidade dos internautas, o que reduz a capacidade de emprego de dados subreptício. Veja que isso é distinto de controlar o conteúdo, que é censura: essa legislação apenas restringe a informação que alguém obtém de outro, sem autorização. Já os meios de comunicação tradicionais estão empenhados em identificar as fake news e divulgar isso ao seu público. Uma pesquisa já notou que alguém que descobre que a notícia que ele compartilhou é falsa pode ficar tentado a reforçar seu erro. Mesmo assim é importante registrar os fatos reais, pois esses serão divulgados por formadores de opinião, criando uma corrente competidora.

 

Além de governos e grandes empresas, a sociedade civil e desenvolvedores estão empenhados, lançando aplicativos para o acompanhamento das eleições e fazendo campanhas de esclarecimento, em oferecer ao eleitor instrumentos para um bom voto. Em São Paulo, no final de setembro teremos mais uma edição da Virada Política, um evento que reúne jovens e ativistas em busca de uma política melhor. Nada disso fará sentido, entretanto, se nós, eleitores, público, cidadãos, não assumirmos nossa responsabilidade na hora de compartilhar notícias, de apontar a uma amigo uma notícia falsa, na hora de criticarmos com civilidade um amigo ou um líder político.

 

No frigir dos ovos, dadas as tecnologias disponíveis, são os atores sociais – nós – que determinam para onde vamos enquanto nação. É preciso resgatar o pensar racional que a rapidez das redes sociais embota, e fazer isso a partir de perguntas simples e cotidianas é a melhor estratégia: eu quero essa pessoa presidindo meu país? Pois é disso que a eleição trata. O que acho que ela fará de fato? O que acho que ela gostaria de fazer, se tiver oportunidade? Sair das redes sociais por um tempo, e resgatar a boa e velha conversa, onde exercemos nossa capacidade ancestral de falar e principalmente escutar, é essencial. Na conversa, ouvindo o outro falar, conseguimos ver se um certo discurso faz sentido ou não, e podemos corrigir nossas próprias impressões. O outro nos pergunta, e para responder somos forçados a retornar a nossos valores, nossos valores brasileiros essencialmente bons.

 

Em 2018, o melhor radar para as notícias falsas não virá dos aplicativos, mas de sentar-se à mesa e conversar com nossos pais e filhos, nossos alunos e mestres, com o vizinho e o chefe. Com os amigos, sobretudo. É através da conversa, essa arte na qual os brasileiros são exímios, que decidiremos quem será o próximo presidente do Brasil, alguém de quem poderemos nos orgulhar e até, quem sabe, chamar para uma conversa, algum dia.

 

Heloisa Pait é professora da Faculdade de Filosofia e Ciências, Câmpus da Unesp de Marília

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