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Por Angelina Jolie, atriz, cineasta e enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)   As famílias refugiadas aguentam inúmeras formas de angústia física e mental, incluindo a dor de ser incapaz de dar comida aos seus filhos quando estão co...

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Uma história de duas refugiadas

Publicado por: admin
13/09/2018 09:40:52
Angelina Jolie em visita a um vilarejo no Afeganistão. Foto: ACNUR/J.Tanner
Angelina Jolie em visita a um vilarejo no Afeganistão. Foto: ACNUR/J.Tanner

Por Angelina Jolie, atriz, cineasta e enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)

 

As famílias refugiadas aguentam inúmeras formas de angústia física e mental, incluindo a dor de ser incapaz de dar comida aos seus filhos quando estão com fome ou medicamentos quando estão doentes ou feridos. Mas eu também vi o quanto isso tem um impacto sobre os pais refugiados quando eles são incapazes de mandar seus filhos para a escola, sabendo que, a cada ano que passa, suas perspectivas de vida vão diminuindo e sua vulnerabilidade, aumentando.

 

Em um relatório publicado recentemente, o ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, alerta que um número crescente de crianças refugiadas não está recebendo educação. Embora as implicações sejam graves, nossa resposta não deveria ser o desespero, mas sim, a oportunidade.

 

A crise global de refugiados é um grande desafio para a nossa geração. Mas a missão não é uma causa perdida. Os próprios refugiados não estão esperando passivamente por ajuda, mas estão ativamente procurando maneiras de fazer parte da recuperação de seus países. A educação é uma chave para ajudá-los a fazer isso.

 

As vidas díspares de duas garotas sírias que conheci estão vívidas em minha memória. A primeira era uma jovem que chegou ao Líbano com seus cinco irmãos quando tinha 11 anos. Sua mãe havia morrido em um ataque aéreo e as crianças foram separadas do pai. Não havia os pais para colocar comida na mesa, então ela passava seus dias recolhendo lixo para vender por quantias mínimas de dinheiro e fazendo o trabalho árduo de pegar água, cozinhar e limpar, para que seus irmãos pudessem ir à escola.

 

Ela teve que deixar de lado o sonho de se tornar médica e, aos 14 anos, casou-se e se tornou mãe. Hoje, ela ainda não sabe ler nem escrever. Mesmo que a guerra termine amanhã, a infância e o futuro que ela poderia ter tido lhe foram roubados.

 

A segunda menina síria em que penso enquanto escrevo este artigo fugiu da Síria para o Iraque com sua família, quando tinha 16 anos. A vida deles no acampamento era extremamente difícil, mas ela conseguiu se matricular em uma escola local. As autoridades educacionais do Iraque não reconheceram seu diploma sírio, então ela repetiu o último ano do ensino médio.

 

Ela agora estuda odontologia em uma universidade iraquiana, enquanto ainda vive com sua família em um campo de refugiados. Quando conheci a família neste verão, ela me disse que, assim que pudesse, voltaria para sua terra natal e ajudaria na reconstrução. “A Síria precisa dos jovens", ela disse.

 

Nós frequentemente descrevemos os refugiados como uma única massa de pessoas, um fardo. Nós não vemos o intricado mosaico de homens, mulheres e crianças, indivíduos com bagagens diversas e imenso potencial humano.

 

Há milhões de jovens refugiados com energia, desejo e compromisso para estudar e trabalhar, que querem contribuir para as sociedades que os acolhem e, em última instância, ajudar a reconstruir seus países de origem. Há milhões de pais deslocados que farão todos os sacrifícios imagináveis ​​para ajudar seus filhos a ir para a escola.

 

Lembro de um pai que conheci no oeste de Mossul, que, de alguma forma, sobreviveu com sua família aos três anos do governo brutal do Estado Islâmico e à violenta libertação da cidade. Por não terem deixado o Iraque, eram classificados como deslocados internos em vez de refugiados e, apenas recentemente, puderam retornar à cidade. De pé, ao lado de sua antiga casa, cravada de balas, ele lutou contra as lágrimas de orgulho ferido, enquanto me mostrava os boletins escolares de suas duas filhas pequenas que haviam voltado para a escola.

 

No fim das contas, pensei, é assim que se reconstrói um país: não com acordos e resoluções de paz, por mais necessários que sejam, mas com milhões de boletins escolares, aprovações, diplomas, empregos adquiridos e jovens vidas direcionadas para um bom propósito, em vez de vidas definhando nos acampamentos.

 

Ninguém sonha em ser um refugiado. Eles sonham em viver de acordo com seu potencial. Eles anseiam por melhorar a si mesmos e suas famílias. Isso é algo que todos nós instintivamente entendemos e com que nos identificamos. Nós experimentamos o poder da educação em nossas próprias famílias.

 

A perda da educação de uma criança é uma tragédia. Com muitas guerras atualmente durando mais do que o período da infância, isso pode significar um país perdendo toda uma geração de jovens com educação e habilidades.

 

Por outro lado, investir na educação de refugiados é a maneira mais poderosa de ajudá-los a ser autossuficientes e contribuir para a estabilidade futura dos países dilacerados por um conflito.

 

O ACNUR está pedindo que as crianças refugiadas tenham acesso a um currículo adequado durante todo o ensino fundamental e médio, para que possam obter qualificações reconhecidas e ter uma chance no ensino superior.

 

Pedimos que mais apoio seja dado aos países das regiões em desenvolvimento, que acolhem 92% dos refugiados em idade escolar, para que mais crianças refugiadas possam ser incluídas nos sistemas nacionais de educação. Estamos pedindo às nações mais ricas que combatam os déficits de orçamentos humanitários para que os pais refugiados não tenham que escolher entre dar comida para os filhos ou mandá-los para a escola.

 

Dificilmente vivemos um dia sem notícias sombrias sobre violência, sofrimento e deslocamento de pessoas, do Afeganistão ao Iêmen. É difícil encontrar mesmo um exemplo, enquanto comunidade internacional, de onde estamos tendo sucesso em acabar com conflitos e garantir a paz. Às vezes, o resultado pode ser uma sensação avassaladora de um mundo desequilibrado, no qual mesmo nossos melhores esforços de alguma forma ficam aquém.

 

No entanto, a resposta não é sentir-se sem esperança ou virar o rosto, mas trabalhar de maneira paciente, a longo prazo, e guiada por nossos valores, para eliminar o que parecem ser problemas amplos e insolúveis. Se ajudarmos os refugiados a obter uma educação, eles próprios assumirão a tarefa mais difícil de reconstruir os países cuja futura paz e segurança são tão importantes para nós. É o caminho de ação sábio, bem como moralmente correto.

 

*Artigo publicado originalmente no portal de notícias da rede norte-americana CNN, em 29 de agosto de 2018.

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