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Léo Rosa de Andrade, escritor, professor, psicanalista e jornalista Há algumas boas diferenças entre a pessoa inteligente, culta, capaz de compreender que o mundo é complexo, e o ladino, safo nos seus pequenos interesses, hábil em levar vantagens no mo...

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Felizes convicções

Publicado por: admin
02/01/2021 09:10:03
Courtesy Pixaby
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Léo Rosa de Andrade, escritor, professor, psicanalista e jornalista


Há algumas boas diferenças entre a pessoa inteligente, culta, capaz de compreender que o mundo é complexo, e o ladino, safo nos seus pequenos interesses, hábil em levar vantagens no mover-se pela cotidianidade. Conheci e polemizei animadamente com um desses do último tipo. Impressionou-me o seu pensamento, muito peculiar, sobre o hábito de conviver com livros: argumentava ser a leitura um verdadeiro prejuízo para a arte do bem viver.


Não obstante espinafrar a convivência com as letras, considerava que a sabedoria estava nas ideias. Se a pessoa estivesse feliz, essa felicidade decorria das ideias que tivesse. Suas provas e razões, porém, eram íntimas, não estava exposto a persuasões. E um pormenor condicionante: nem ideias a mais, nem ideias a menos. As ideias que tinha. Ponto. Então, coerentemente, era contra livros; filmes, só para entretenimento; conversas, que não fossem “papo cabeça”.


Por quê? Ora, coisas assim que nem essas vêm com novidades, teoria e complicação, então, tudo com o devido cuidado. Conforme suas formulações teóricas antes explicadas – mas repetidas para evitar má compreensão –, não se pensasse que defendia uma cabeça vazia de bom conteúdo. Nada disso. A questão era a satisfação com o equilíbrio alcançado. O sujeito está compensado, ou seja, o arranjo do que já aprendeu está conformado? Se sim, está tudo bem.


Aprumou-se, professorou: a sensatez recomenda cuidados para que cada coisa fique exatamente no seu bem acomodado lugar. Se conviver com um livro, por exemplo, vão aparecer, no andar da leitura, pensamentos novos, que se vão misturar com os antigos. Dessa mistura podem surgir pensamentos diferentes: depois não dá mais para separar as coisas, e, aí, pode complicar. Como saber o que originalmente era seu, já garantido? E se o novo saísse do controle?


Ideia nova, assegurava, com certeza prenuncia o mal. Não se a apaga mais, cresce, desarranja as coisas, e seus efeitos podem ser um desastre. Aproveitei o “podem ser” para contrapor um “poderiam não ser”. Claro, esforço vão: em situação que está boa não se mexe. Se estiver bom, então está bom, é bom ficar assim, porque o que importa é a felicidade garantida com o que se tem. Ademais, ninguém é feliz com as ideias dos outros; a pessoa nunca fica acabada.


Psicologizei: surgimos em uma Tradição, ideias para todos os lados; nascemos um pedaço de carne, sem ideia alguma, muito menos ideias próprias. Disse-lhe que a psicanálise nos explica que somos seres falados, que as coisas nos vão sendo ditas. Toda uma cultura nos é comunicada e preenche uma tabula rasa: aparelhos ideológicos fabricam percepções, grupos de interesse se articulam e manipulam a opinião pública, a indústria de entretenimento barato aliena.


Filosofei exasperado: ideias completam a existência, nos alcançam vindas do mundo, o mundo é alcançado com elas. Ouvi, em afetada devolução: por isso mesmo, tudo isso ataca todas as pessoas por todos os lados o tempo todo, ninguém sabe quem é quem, ninguém está seguro. Estando bem, devemo-nos fechar. Seguir fechados. Nada entra, nada sai. Manter a integridade intelectual, que o intelecto não é uma bagunça exposta a qualquer gosto ou a qualquer alguém.


Derradeiro esforço. Atribui-lhe a condição de empacotado: alguns poucos lances na vida e fechara a cabeça, desistira de conferir outras afirmações, visões de mundo. Logiquei: que entendesse sua posição apriorística: aceitava uma compreensão anterior e definitiva das coisas, sem contraposição, sem o gosto da refrega, sem uma experiência dialógica com os tantos saberes que rondam por aí. Assim, arrematei com categoria, ele acabaria sabendo a vida antes de conhecer a vida.


Pensei tê-lo abalado no fundo das suas firmadas razões. Mas não. Fui, ademais de recusado, imputado de suspeição. Estava claro: essas falas todas não podiam ser só minhas. Eu certamente as teria lido em alguns livros, roubado ideias dos outros, e vinha embaralhar certezas que, se deixadas assim, estariam muito bem. Não tive como discordar. Honestamente, era isso mesmo. Eu subsisti com a inquietude da dúvida; ele, na placidez dos convictos, com mais convicção.

 

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