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O Instituto de Virologia de Wuhan é o foco de muitas teorias da conspiração sobre a génese do coronavírus que provoca a covid-19. É nele que se pensa quando os EUA insistem na ideia de que o vírus teve origem num laboratório. Mas não são de agora as su...

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O laboratório de todos os perigos. Instituto de Wuhan nasceu graças a tecnologia francesa

Publicado por: admin
10/05/2020 14:49:47
Instituto de Virologia de Wuhan, na China
Instituto de Virologia de Wuhan, na China

O Instituto de Virologia de Wuhan é o foco de muitas teorias da conspiração sobre a génese do coronavírus que provoca a covid-19. É nele que se pensa quando os EUA insistem na ideia de que o vírus teve origem num laboratório. Mas não são de agora as suspeitas em torno da infraestrutura que lida com doenças infecciosas perigosas.

 

O Instituto de Virologia de Wuhan é o único centro de pesquisa chinês de segurança máxima para lidar com as doenças infecciosas mais perigosas, como o Ébola. O laboratório só nasceu graças ao apoio científico de França e tem como uma das responsáveis a virologista chinesa Shi Zengli, conhecida como “Batwoman” (Mulher Morcego) por ter descoberto várias amostras de coronavírus numa gruta de morcegos na China.

 

As teorias da conspiração em torno da origem da covid-19, nomeadamente as que apontam para que o vírus tenha sido “fabricado” como arma biológica, vão quase todas dar a este laboratório. Vários especialistas já descartaram a hipótese de um vírus criado em laboratório, mas não foi totalmente descartada a possibilidade de um erro humano.

 

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, já disse que há uma “enorme quantidade de evidências” que apontam que o vírus saiu de um laboratório de Wuhan. Mas ninguém viu ainda essas provas.

O director do Instituto, Yuan Zhiming, desmentiu de maneira categórica que o laboratório esteja na origem do surto. “Não é possível que o vírus tenha saído” do laboratório, assegurou a media chineses, frisando que “não há nenhuma prova”, nem fundamentos para o alegar.

 

Governo chinês insiste na origem natural do vírus, mas também tem rejeitado investigações internacionais em Wuhan, para tentar descobrir onde a transmissão aos humanos se iniciou e de que forma.

 

China “usou” França e depois “cortou as pontas”

Entre as dúvidas e o secretismo, é preciso recuar a 2017 para perceber como “nasceu” o laboratório de Wuhan que agora está tanto na ordem do dia.

 

Foi depois do surto de SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave], em 2003, que a China começou a mover-se no sentido de fundar um laboratório de alto nível de segurança, para pesquisar as doenças infecciosas mais perigosas e evitar futuras pandemias. Ainda tentou obter ajuda dos EUA, mas acabou por se virar para a França que tinha então como presidente Jacques Chirac.

 

Começou a alinhavar-se uma cooperação franco-chinesa que devia envolver tecnologia e ciência. Apesar de alguns receios no seio do Governo francês de que o laboratório pudesse vir a ser usado para fins de guerra biológica, o projecto avançou.

 

Muito contribuiu para isso o facto de Wuhan ser uma metrópole fortemente industrializada e tecnológica, com 11 milhões de habitantes, o que agradava à França em termos comerciais – grandes empresas francesas como a Peugeot, a Renault, a Schneider e a Pernod-Ricard conseguiram instalar-se em Wuhan.

 

Em 2017, o laboratório foi inaugurado com a presença do então primeiro-ministro francês, Bernard Cazeneuve.

 

No momento da inauguração, a China apontava a vontade de ajudar na luta contra o vírus do Ébola em África, zona onde o país mantém muitos interesses económicos. Além do Ébola, o laboratório tem-se dedicado também a pesquisas sobre a Febre Amarela e sobre o SARS.

 

Mas a cooperação franco-chinesa, anunciada com pompa e circunstância, foi apenas um sonho bonito para os gauleses. A China depressa tomou conta de tudo. Os virologistas e bacteriologistas franceses que deviam trabalhar em Wuhan nunca fizeram as malas e o co-presidente francês do laboratório, Alain Mérieux, deixou o lugar alegando que a infraestrutura se tinha tornado “demasiado chinesa”.

 

“No fundo, os chineses só estavam interessados numa coisa: a tecnologia“, explica à revista francesa Paris Match Antoine Izambard, um dos poucos jornalistas a terem acesso a este laboratório e, possivelmente, um dos últimos franceses a conseguir lá entrar, em Fevereiro de 2019.

 

Logo que garantiram a tecnologia, os chineses “cortaram as pontas e isso inquietou a França” acrescenta Izambard. Isto porque os franceses tinham dúvidas quanto à capacidade dos chineses de dominarem os requisitos necessários para “lidar com patógenos ultra-perigosos da classe 4”, como aponta o jornalista.

 

Em Janeiro de 2018, membros da Embaixada americana em Pequim denunciaram a alegada falta de medidas de segurança suficientes no laboratório. O jornal Washington Post divulgou em Abril passado telegramas onde esses receios foram transmitidos à Casa Branca.

 

“Batwoman” temeu que o vírus tivesse saído do laboratório

O Instituto de Wuhan deu um grande contributo para o conhecimento do vírus que provoca a infecção por covid-19, apurando que o seu genoma é em 80% igual ao do SARS e que corresponde quase a 100% por cento com um coronavírus detectado em morcegos.

 

Trata-se do único laboratório chinês com a classificação P4, o nível mais elevado de segurança que é atribuído às instalações que lidam com os vírus mais perigosos.

 

“Se um erro humano pode ter acontecido em Wuhan, ter-se-á produzido, muito mais provavelmente, no Centro de Controle e de Prevenção de Doenças, com menos segurança e, sobretudo, muito mais próximo do mercado de animais da cidade”, constata Izambard na Paris Match.

 

O jornalista refere-se ao laboratório com classificação P2 que pesquisa os coronavírus dos morcegos e que está localizado a cerca de 300 metros do mercado.

 

Na cidade, há ainda um laboratório P3 que se dedica também ao estudo dos coronavírus.

 

A virologista Shi Zhengli, que integra a direcção do Instituto de Wuhan, já admitiu que chegou a temer que o vírus tivesse saído do seu laboratório, conforme um artigo publicado a 11 de Março pela Scientific American.

 

A “Batwoman” assegurou, contudo, que não há coincidência entre a sequência genética do vírus que provoca a covid-19 e aqueles que a sua equipa estava a analisar em laboratório.

 

Isso retirou um grande peso da minha cabeça. Não consegui pregar olho durante dias”, desabafou a investigadora na revista científica.

 

Apesar dos apertados critérios de segurança, nunca há risco zero associado a estes laboratórios. E já houve, no passado, casos de “fugas” acidentais de vírus deste tipo de infraestruturas de investigação.

 

Em 2004, aconteceu com o vírus SARS num laboratório P3 em Pequim, contaminando dois investigadores. A Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu, na altura, a existência de “erros” e altos responsáveis do laboratório foram sancionados pelo Governo chinês.

 

Em 2003, um investigador de Taiwan também ficou infectado com o SARS num laboratório P4 quando tentava desinfectar manualmente um módulo de transferência do vírus.

 

Especialistas descartam tese da “arma biológica”

As questões de segurança em torno do Instituto de Wuhan são uma história antiga e foram também apontadas na publicação científica Nature já em 2017.

 

“O seu baixo nível de segurança tinha sido apontado por vários visitantes franceses, mas foi há uma quinzena de anos, as coisas evoluíram entretanto”, sublinha ao site de informação francês 20 Minutes Izambard, autor do livro “França-China: As ligações perigosas”.

 

Até agora, a China deu indicações de que não vai permitir investigações da OMS, nem de especialistas estrangeiros em Wuhan, na tentativa de perceber a origem do vírus.

 

Descartada parece, desde já, a hipótese de se tratar de um vírus “fabricado” em laboratório, como chegou a insinuar o Prémio Nobel da Medicina Luc Montagnier, alegando que o coronavírus teria sido criado a partir do vírus da SIDA, numa tentativa de fazer uma vacina.

 

“Não há absolutamente nada na sequência genómica deste vírus que indique que possa ter sido criado por engenharia genética. A possibilidade de que se trate de uma arma biológica conscientemente difundida pode ser excluída de certeza“, garante o professor de Biologia Química Richard Ebright, da Universidade de Rutgers, nos EUA, em declarações ao The Washington Post.

 

Fonte: SV, Planeta ZAP //

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