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Por Léo Rosa *   A relação conjugal, o cotidiano de um par amoroso forma cumplicidades, cria segredos, inventa dizeres só seus. Também mostra o avesso de cada qual e suprime inibições. Após algum tempo, segundo me contam, na intimidade de um casal quas...

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Coisas da vida banal

Publicado por: admin
08/01/2020 19:38:37
Courtesy Pixabay
Courtesy Pixabay

Por Léo Rosa *

 

A relação conjugal, o cotidiano de um par amoroso forma cumplicidades, cria segredos, inventa dizeres só seus. Também mostra o avesso de cada qual e suprime inibições. Após algum tempo, segundo me contam, na intimidade de um casal quase tudo está exposto por um diante do outro.

 

Não se trata de perder a vergonha. Parece que a vergonha perde o sentido. Ora, vergonha é falta de confiança em si ou escrúpulo diante do outro, o que leva à repressão de grandes e pequenas vontades. O cotidiano vai dando jeito nessas coisas. Num dia atos contidos; noutro tudo é trivial.

 

De fato, o dia a dia vai produzindo uma moralidade doméstica, com códigos para compreensão e uso do casal. Nessa moralidade caseira dia a dia se vai diluindo a moralidade individual das partes que gozam de intimidade. As partes se sabem, com tudo o que isso tem de bom e mau.

 

Entre a porta da sala e a da cozinha há mais segredos do que entre o céu e a terra. Esses segredos, claro, são para os de fora, que dentro de casa basta prestar atenção aos detalhes que uma parte saberá o que quiser e o que não quiser saber da outra. Jeitinhos e bardas falam por si.

 

Cada parte está exposta à outra de muitos modos, por muitas vezes, por muito tempo. A moral individual aberta é exposição plena. E mais do que a moral, de tanto se expor, expõe-se, também, a compostura dos modos. A correção de maneiras vai recebendo licenças até o completo abando.

 

Não demora muito e se abandona a barriga, a barba, a depilação, a tampa do bacio, os gazes, as vestes, o palavreado. Fica-se, e o que é pior, com toda a licença para ficar, relaxado. Cada parte desavista o descuido da outra para poder também se descuidar. A coisa desanda em desinteresse.

 

Exibir-se no melhor de si é coisa do namoro, obsoleta estratégia de sedução. Realizado o encanto, desanda o amor próprio; a vaidade desvia-se em desapreço esculachado. E não é por menosprezo ou desafeição; é por quedar-se desatento de cuidar e de cuidar-se. É desmazelo e só.

 

Não sou de conselhos, mas recomendei a uma amiga: viver com alguém? Mantenha o nível. Se desenhar expectativa alta, sustente a coexistência elevada. A vulgarização do comportamento no contubérnio devasta a sensação do belo, do amoroso, da graça de coexistir. Acaba o tesão.

 

Não há tesão que resista à estética do desapaixonado, inclusive por si próprio. Se o olhar-se no espelho já não acorda Narciso, não acorda mais nada. Ninguém se interessa pelo olhar do outro se não se interessa por olhar-se. Quero que o outro aprecie o que eu aprecio em mim.

 

Amigo meu segredou-me um causo de declínio de intimidade. Não era briga, o casal só não se curtia. Ele não escanhoava o rosto; ela deixou de acarinhá-lo. Ela relaxou os pelos; ele largou de afagá-la. Já ninguém passeava a mão pelo corpo de ninguém. Morreu-lhes o gosto.

 

Enfim, era triste: a coisa ia de ruim para pior. Perdurava o silêncio, a tv ainda salvava a situação. O problema, aliás, agravou-se exatamente por causa disso: a televisão. O filme tinha rapazes bonitos e gestos carinhosos. Havia sexo. Ela, tocada pelas cenas, tomou-se de vontade de namorar.

 

A transa ia boa, mas, aí, o rosto dela: olhos fechados e um sorriso gostoso que há tempos não era assim. Ele encheu-se de pensamentos. Não parou enquanto pensava, mas não dava para não pensar: não era com ele. Ela não estava com ele. Ele a conhecia bem, sabia que aquele jeito entregue, sem pressa, era qualquer coisa que não era transar com ele.

 

Para, não para, falou: abra os olhos. Ela nem se mexeu; ou não ouviu, ou desentendeu. Repetiu. Ela olhou, mas não desmanchou o sorriso. Ele foi macho: ou é comigo, ou não é com ninguém; fica de olho aberto, tem que me ver. Ela ficou, mas, olhos no teto, passeou com a imaginação. Meu amigo me disse: um com o outro, foi a última vez.

 

* Léo Rosa de Andrade, Doutor em Direito pela UFSC. Psicólogo e Jornalista.

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